Wednesday, December 05, 2007

Aviso aos navegantes:

Pasmem, pequenos: postagens pioram.

É um degradé ascendentemente e anti-artisticamente esgotador e frustrante; um estado de espírito esvaziado de substância inteligente, inteligível, ou interessante; um desprocesso criativo desengenhoso, destalentoso, desprovido, desnudo: detestável.

Mas tudo bem, afinal, todo gênio tem sua crise existencial.

M.T.Kodic

Friday, November 09, 2007

O-culto

Ô, Chico, como é que pode?!
eu fico bambo no samba que canta.
Batida quente de gente sorrida
Compasso que causa amasso e sacode.

Mas ninguém pensa quando sente,
o vento no peito do bumbo grave
oculta a voz fraca de verso forte,
signficados mil daquela frase
mostram o Brasil de apenas sorte.

Mas, Chico, tenha calma!
Muitos te escutam sem-graça, na raça.
Prazer imenso na mente e na alma,
não apenas dançam mas sobre a letra suam,
tentando entender toda sua trapaça.

H.M.Bergamo

Tuesday, September 25, 2007

F de Facataz

Favelas
Tijolos à mostra
Duros, rochas-de-sangue,
Em frágil equilíbrio
Balanço

Festa
Na laje, gente curtindo,
Fumando, caindo em nuvens curtidas
Envolvente fedor
Sexo

Famílias
Mancas, sem pernas, sem amor
Bêbados eles as deixam
Assim, de barriga
Voltadas para cima, rezam
Deus

Filhos-do-mundo
A luz chega em nove
Se movem, esticam...
A linha da infância sobe
A pipa vira medo, terror
Ânsia

Febril
Vômitos e votos se vão, em vão
Promessas pintam o preto, protesto
Mas nada muda
Sede

Água-ardente. Fim

H.M.Bergamo

Prato do dia: Lula

Existem pessoas que acham o Lula bom.
Outras acham o Lula ruim.
Outras simplesmente acham ruim achar o Lula bom.
Outras acham bom achar o Lula bom.
Eu tenho certeza de que não sei quem é ou o que é Lula, dizem que é presidente, mas como posso reclamar se o Pedrão 2 entrou na balada política de RG falso?
É muito para mim. E para você?
Não é uma questão de opinião ou razão.
O Lula é fruto de uma história.
E agora... quem irá nos salvar... ops... "Quem seria "nós"?"

H.M.Bergamo

Wednesday, September 19, 2007

Carta aos franceses

Queria esclarecer que o fazem cair em erro. Que você faz o jogo dos extraordinários, dos doutos da experiência. Mas antes irá se perguntar: por que me escreve? E não será o primeiro. Pois sim, escrevo; e não me arrependo – talvez me arrependesse se parasse para pensar, mas não paro, deixo a caneta correr e ela dispara só não mais rápido que a cachola, mas confesso que há perigo de empate. Talvez nem te escreva, mas escreverei sobre você, o que certamente não te elevará em nível algum, talvez apenas na percepção que tem de si mesmo. E isso, infelizmente (se de fato ocorrer), provará que você não entendeu uma palavra. Mas viveremos.
O fato é que leva sua vida de rastos, numa inércia moral, caído em torpor. Flui com e como os homens nos cafés, nos museus, nos teatros. Um matrimônio às pressas, por impaciência, interesse, gerando filhos à eventualidade. Toda a luz que se propaga à sua volta começa e termina fora do seu campo visual, numa velocidade finita. Fortuitamente, apanhado como um flagelo que bate em forma de centrífuga, como num moinho, se debate sem inteiramente perceber o que te acontece. Episódios que vêm de longe tocam-no bruscamente e, quando você quer olhar, tudo já está terminado. Difusos círculos herméticos: um ciclo.
Depois, aos trinta e três, se fará de disparador inconsciente: “dois níqueis na fenda da esquerda e eis que saem anedotas embrulhadas em papel prateado, dois níqueis na fenda da direita e recebem-se preciosos conselhos que grudam nos dentes como caramelos pegajosos”. E correrá como o mel, numa caixinha de papel. Encenará o batismo de seus pequenos caprichos e meia dúzia de máximas e os registrará, como filhos, com o nome de Conhecimento. Ora, também eu, através desse mesmo processo, poderia ser convidada pelos notáveis jogadores a freqüentar os corredores em que se bebe, se pinta e se encena. Seríamos os velhos circuitos estáticos em constante revolução, parados diante do Eterno.
Gostaria de me fazer acreditar que o seu passado não se perdeu. Que há luz, aquela mesma que foge à sua visão, e que ela voltará. Mas não há luz. Suas reminiscências se liquefizeram, se verteram lentamente ao que você dá o nome de Experiência. Jogou fora as tulipas e os olhos castanhos a quem você pedia que ficassem dourados só pra você. Ficou com o relógio de bolso e os binóculos de ópera, acrescidos a quantos Charles você conseguir lembrar. Teria sido o Baudelaire, o Bukowski, ou o Dickens? Não importa mais. A vida terá se encarregado de pensar por você.
M.T.Kodic

Thursday, May 31, 2007

Ao Belo Ciclo

Assuntos banais, cansavam. Decidi entrar. Ficavam geralmente horas idealizando jornadas kerouaquianas - liam muito. Não obstante, parei quando riram-se todos. Utopias via walkie-talkie, xadrez, yin-yang? Zarpei.

M.T.Kodic



(já que ninguém percebeu, vim anexar um post scriptum: as palavras estão em ordem alfabética)

Thursday, April 05, 2007

Física? ...que tal Filosofia?

A popularização da teoria da relatividade fez com que o conceito de que tudo é relativo também se tornasse um clichè. Mas atribuí-lo a Einstein é outra história. Para ele, todo "movimento" é relativo; o deslocamento é sempre descrito a partir de um referencial. Mas por que não aplicar tal "filosofia" aos acontecimentos da vida em si?

O bebê sorri porque ainda não tem memória, o velho pois já a perdeu. Cada vez que afirmamos que tudo é relativo, estamos determinmando um tudo, onde todos os elementos estarão relacionados a si mesmos e a todos os outros; e o que estiver além deste tudo pode ser ou não ser.

Na Arte, as cores nunca serão vistas na sua totalidade física. Cada um enxerga de um jeito. A mente humana funciona de modo imprevisível. Bons momentos, por exemplo, tendem a durar (subjetivamente) menos que os ruins. Se pensarmos que a matéria é energia, a morte física também será relativa. Após a morte (e a religião, neste caso, não é a questão), ocorre a transformação da matéria, porém ela permanecerá no corpo como outra forma de energia.

Pode ser que a relatividade não passe de uma solução temporária e realmente exista uma verdade absoluta. O problema maior é que não a conhecemos. Percebmos que, em se tratando de conhecimento, as pessoas são pequenas. Todas. A verdade, os conceitos, as interpretações que cada um faz a respeito de cada circunstância ou idéia são decorrentes de um processo único de desenvolvimento. A concepção que cada indivíduo tem do mundo depende de suas experiências, crenças e ideais, os quais determinarão seu posicionamento frente a cada fato discutido.

Até o senso de relatividade é restrito à nossa subjetividade. Não podemos sequer afirmar que a relatividade em si é absoluta, pois ela se aplica a si mesma: o próprio relativismo aceita a possibilidade de estar errado. Absoluta, somente a velocidade da luz. Pelo menos até que surja um novo Einstein e prove o contrário. Essa hipótese é relativa. Essas idéias são relativas. Minha opinião e a do leitor são relativas. E esta discussão é infinita.

M.T.Kodic

Wednesday, January 24, 2007

Amor sem clichés

Eu era um artista. Daqueles que respiram arte 24x7. Venerava a boa arte e gostava mais ainda de detestar a ruim. E detestava tudo o que não era arte. Meus amigos, como não poderiam deixar de ser, eram artistas. Arte era minha Filosofia. O mais era nada. Passara cada um de meus vinte e dois anos erguendo todas as defesas possíveis, desenvolvendo todo um mecanismo de resistência. Construíra uma barreira invisível para que nada pudesse me atingir. Vivia, por mim e para mim, em meu mundinho impermeável.
Até que a encontrei. A vida era mesmo um abismo de surpresas. Numa fração de segundo, aparece uma pessoa banal, igualzinha a qualquer outra pesso banal, e faz algo igualmente banal. E de repente... adeus barreira. Ela descia de um táxi preto. Terno preto, cabelo imaculável. Poder, modernidade, anonimato. Ela era arte.
Fomos apresentados: advogada. Minhas mãos trêmulas permaneciam guardadas no bolso para não serem vistas. Aversa à imaginaçao, vivia segundo o racionalismo de Descartes. Para ela, imaginar era representar objetos segundo as qualidades secundárias, os sentidos de nada valiam. Naturalmente, meu ofício nada mais era do que passatempo de vadio.
Cobria-me de encantos e de medos. Cativo, na transição entre egocentrismo e submissão, sucumbi. Silêncio. E aqui caberiam mil substantivos. Provocação, insistência, concessão, todos acentuados. Perspectiva? Harmonia. Sua exatidão e minha humanidade cruzaram-se, descruzaram-se, mesclaram, e se fundiram perpetuamente. Completávamos um ao outro.
Continuo artista. Mas não sou aquele velho e incansável bon vivant. Minha maior convicção foi desmascarada: boemia e arte são, sim, dissociáveis. Substituí a inconseqüência pela reflexão, troquei meus vícios por suas virtudes.
Se me arrependo?
Olha o sorriso dela.

M.T.Kodic

"Circunda-se de rosas, ama, bebe e cala.
O mais é nada". - Fernando Pessoa

Thursday, January 18, 2007

Corte seco

Não há quem deixe de buscar no espelho do elevador um pouco de sua própria imagem. Vaidade pode até ser, mas serei ameno, é sempre só uma olhada ocasional. O reflexo pode lhe parecer misterioso, agradável, ou até antipático, mas nunca deixa de ser um guia para a linha do batom ou um sincero juiz ao condenar o nó da gravata séria. Mas nesse dia havia mais, encaminhava-me ao cabeleireiro, barbeiro se exigir uma rudeza maior. Olhava-me não somente no elevador, mas também no reflexo escuro de carros parados, ou em vitrines que insistiam em mostrar meu rosto. A cada espiada um corte diferente aparecia em minha cabeça definindo-me externamente. Há quem diga que cada aparência revela uma personalidade. Mas eu digo que o visual em nada influencia o caráter. Porém, nesse dia meus princípios se exauriram. Buscava em mim algo que pudesse me fazer superior, importante. Na loja musical me vi em Elvis, não só o cabelo, mas também em sua fama. No vidro da livraria desejei não ter cabelo algum, ser simplesmente um bicho, realizado. No metrô, sentei-me à janela. Luzes rápidas trocavam meu ser. Curto, soldado. Longo, boêmio. Franciscano, santo. Moicano, rebelde. O trem parou, desci. Na escada rolante subia eu e modelos em anúncios me acompanhavam opinando. “Faça como o meu e consiga uma foto maravilhosa como esta. Provocante não?”. Muito, mas dispensei. Afinal, o que as fotos sabem sobre a vida? Desci a rua com passos em compassos. Cheguei. No salão ouvi gritos de súplica, sofrimento. Um menino de olhos azuis esperneava, buscava uma saída da poltrona do corte. Possuía um olhar perdido no labirinto oligofrênico que habitava seu cérebro. Gritava a cada movimento mudo da tesoura, uma tortura que me comovia, corria-lhe. Sua mãe ao lado, segurava-o com as mãos e com o amor. E todos ao redor tentavam transmitir bondade, normalidade. O serviço em fim terminou e o garoto se foi mais acalmado. Sentei-me na poltrona e apanhei uma revista para adultos. “Vai cortar como hoje, patrão?”. Honestamente respondi. “Tanto faz”. E apreciei fotos de mulheres nuas tentando desviar a imagem de uma criança sincera. E paguei sem dar conta do dinheiro que contei. E saí sem ver meu velho rosto renovado.

H.M.Bergamo

Wednesday, January 10, 2007

Digestão Peculiar

Quantas analogias à vida fazemos continuamente? E haverá algo mais infinitamente confuso, equivocado e policromático? Não sei.. talvez ela seja mesmo preta e branca, e nós que insistimos em olhá-la através de lentes ilusórias que a transformam em colorida e jovial. Faz sentido. Mas deixemos de lado as cores... falemos dos sabores. Sinta o gosto e o cheiro dessa essência de misturas que é a vida. O mundo pertence aos Häagen Dazs, impassíveis ao mormasso da pobreza, por puro medo de serem derretidos em um mar de responsabilidade. Os pães de transanteontem se acumulam em massa na porta dos fundos, ali, ao lado de um jornal trágico de domingo. Que tentação são aos olhos os bolos de três andares, cobertos de morangos carmins, reluzentes. Mas ao serem cortados pela faca da justiça, revelam-se internamente estragados. Até mesmo o banal misto quente, cortado só até o meio, com o recheio dobrado em quatro. Mas só na metade aparente, porque depois aprende-se que na outra metade não havia recheio algum. O paladar da mente é cego. A cobiça e a ignorância servem de fermento para o erro; bem como a convicção e a incerteza, sal e pimenta de um amor sem tempero. Doce ilusão? Melhor que fosse. O açúcar há tempos se esgotou. Apenas gotas de um adoçante que disfarça mas não elimina o gosto amargo da realidade foi o que nos restou.

M.T.Kodic

"Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria." - Fernando Pessoa

Aquele Sonho

Quando paro e penso
tento e tento não pensar em você
mas não há mente que agüente
ir contra a corrente
ah! Se eu tivesse você

Esse sorriso, esse jeito
todo perfeito de ser
acaba por fim, além de mim
todo o mundo querendo lhe ter.

Se eu lhe tivesse na cama
o "posto que é chama"
iria para o ato, o fato
amando, amasso!

Mas é te querendo e desejando
tentando lhe ver
paro, percebo:
quem é você?

H.M.Bergamo

Thursday, December 14, 2006

Um litro de vergonha

Era entre o primeiro e o segundo turno das eleições “presidenciais”. Sentado ao bar do clube, cultivando carisma e gastando conversa com o garçom que me atendia. Um dos sócios passa pela porta e pára em mim. “Mais um copo, por favor”. Camisa azul clara, desbotada e chique, colarinho de orgulho, sufocante. Gentil, amigão desses para sentar frente à cerveja e ao petisco, bater horas de papo, batendo copos na mesa, mais tarde batendo a cabeça aonde houver apoio.
Naquele tempo era difícil livrar-se do assunto eleições. Cedo ou tarde comentando o resultado da última pesquisa apontando o de sempre, sempre à frente nas intenções de voto. “Pesquisa fajuta!”. A certeza do incerto acaba sempre por enganar a mente do homem. Acreditamos no que queremos, quando nos faz bem. Fraqueza presente em todos, qualidade conhecida pela expressão “se enganar”. Tal característica humana virá me beneficiar. “Está tudo comprado! Quer apostar?”. O prêmio: litro de “Rédi”.
Fácil assim ganhei. Se perseguisse cada cego no mundo, nadaria em destilados, ou beberia demais, chegando a alucinações com corvos em campos de milhos, ou encontraria o mesmo fim que Van Gogh em cenário semelhante ao anterior. Porém não abuso da fragilidade humana. Foi só um litro.
Acabou em uma festa com os amigos. O apostador presente, consumindo o presente que me dera. A ressaca estendeu-se por dois dias. Mas o resultado da eleição se estenderá por quatro anos, e depois mais quatro. O amigo também ficou de ressaca e preso à mesma condição. Diferença que eu ganhei, ele perdeu. Moralmente cabe a você julgar. Quem fede menos? Eu que sei e nada faço, ou ele que não vê e espera acontecer? Enquanto pensa, deixe-me encostar mais um pouco nessa garrafa vazia, mas que um dia foi cheia.

H.M.Bergamo

Wednesday, December 13, 2006

Metalinguagem

Escrevo com minha caneta tinteiro
e depois não compreendo.
Se não o decifro, por que o escrevo?
Não sei, só sei que nada sei.

Escrevo filosofia. Escrevo imodéstia.
Escrevo exagero. Redundância.
Escrevo natureza, e os cinco sentidos.
Dou-lhe vida: metafísica!

Paradoxo? Tudo se contradiz.
Totalidade - escrevo generalização.
Uma exceção muda essa acepção.
Rimas imprevistas!

Ou planejadas? Sou poeta, fingidor.
Escrevo imaginação, ficção, confusão.
Fabrico realidade. Réplica do concreto.
Torno-o abstrato. Incompreensão.

Escrevo vida, sentimento, recordação.
Lembro-me do que há de vir, intuição.
Caos, desordem, fissão.
Escrevo conflito, limito o infinito.

Irreal, verdadeiro. Inversão?
Último, primeiro. A caneta é a borracha
que apaga o ócio, não por inteiro
mas tenta, ligeiro, minha caneta tinteiro.

M.T.Kodic

"As palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem, no céu livre por vezes um desenho, são puras, largas, autênticas, indevassáveis." - Carlos Drummond de Andrade